quinta-feira, março 12, 2009

Eça de Queiroz e a língua dos outros

Extraído do blog do Juca.

Eça de Queiroz e a língua dos outros

Ontem, no CBN EC, li o trecho abaixo de Eça de Queiroz (em "A correspondência de Fradique Mendes", um de seus heterônimos) e muitos ouvintes, imediatamente, pediram que fosse publicado no blog.
Esta feita, portanto, a vontade soberana do ouvinte.
O texto, de fato, é brilhante.
Mas, por favor, não o leve ao pé da letra.

Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra: - todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro.
Na língua verdadeiramente reside a nacionalidade; - e quem for possuindo com crescente perfeição os idiomas da Europa, vai gradualmente sofrendo uma desnacionalização.
Não há já para ele o especial e exclusivo encanto da fala materna, com as suas influências afectivas, que o envolvem, o isolam das outras raças; e o cosmopolitismo do Verbo irremediavelmente lhe dá o cosmopolitismo do carácter.

Por isso o poliglota nunca é patriota.
Com cada idioma alheio que assimila, introduzem-se-lhe no organismo moral modos alheios de pensar, modos alheios de sentir.
O seu patriotismo desaparece, diluído em estrangeirismo.
Rue de Rivoli, Calle d’Alcalá, Regent Street, Willelm Strasse - que lhe importa?

Todas são ruas, de pedra ou de macadame.
Em todas a fala ambiente lhe oferece um elemento natural e congénere, onde o seu espírito se move livremente, espontaneamente, sem hesitações, sem atritos.
E como pelo Verbo, que é o instrumento essencial da fusão humana, se pode fundir com todas - em todas sente e aceita uma Pátria.
Por outro lado, o esforço contínuo de um homem para se exprimir, com genuína e exacta propriedade de construção e de acento, em idiomas estranhos - isto é, o esforço para se confundir com gentes estranhas no que elas têm de essencialmente característico, o Verbo - apaga nele toda a individualidade nativa.

Ao fim de anos esse habilidoso, que chegou a falar absolutamente bem outras línguas além da sua, perdeu toda a originalidade de espírito - porque as suas ideias, forçosamente, devem ter a natureza, incaracterística e neutra, que lhes permita serem indiferentemente adaptadas às línguas mais opostas em carácter e génio.
Devem, de facto, ser como aqueles «corpos de pobre» de que tão tristemente fala o povo - «que cabem bem na roupa de toda a gente».

Além disso, o propósito de pronunciar com perfeição línguas estrangeiras, constitui uma lamentável sabujice para com o estrangeiro.
Há ai, diante dele, como o desejo servil de não sermos nós mesmos, de nos fundirmos nele, no que ele tem de mais seu, de mais próprio, o Vocábulo.
Ora isto é uma abdicação de dignidade nacional.
Não, minha senhora!
Falemos nobremente mal, patrioticamente mal, as línguas dos outros!
Mesmo porque aos estrangeiros o poliglota só inspira desconfiança, como ser que não tem raízes, nem lar estável - ser que rola através das nacionalidades alheias, sucessivamente se disfarça nelas, e tenta uma instalação de vida em todas, porque não é tolerado por nenhuma.

Com efeito, se a minha amiga percorrer a Gazeta dos Tribunais, verá que o perfeito poliglotismo é um instrumento de alta escroquerie.

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